Encalhe

Essa é uma experiência que não desejo pra ninguém, embora digam que só existem 2 tipos de cruzeiristas, os que já encalharam e os que ainda vão encalhar…

Baseados no guia e nas fotos de barcos muito maiores que o Blues nesse local, tentamos fundear por trás da “false entrance” em Benner Bay, St Thomas. Primeiro não sabíamos que não é mais permitido fundear nesse local, e segundo nada no guia dizia que a entrada era tão complicada, embora que, se tívessemos olhado a carta náutica com mais atenção, teríamos visto que era façanha somente pra “locais”.

Então, desavisados, lá fomos nós, na esperança de ficar mais próximos à Budget Marine, ao super mercado e ao especialista em instalação de piloto automático que estava nos dando umas dicas, e que ia nos vender um cabo a mais que precisávamos..

Escolhemos a Christmas Cove, em Great St James, que é bem em frente à Benner Bay, para fazer a instalação, mas a travessia no botinho, era muito longa e molhada, principalmente na volta, por isso pensamos em fundear mais perto.

Por volta de meio-dia, a hora que, sempre que possível, escolhemos pra poder visualizar melhor o fundo, encalhamos, de leve, mas estava complicado sair e chamamos pelo rádio pra ver se havia alguém por perto que pudesse ajudar, não havia, e o rádio não estava pegando direito, alguém fez uma “ponte” com a Coast Guard que, assim que ficou claro que não estávamos afundando, disse pra nos virarmos, essa mesma “ponte” chamou o reboque, TowBoatUS, que passou ao longe e chamou pelo rádio avisando que voltaria em breve.

Enquanto isso o Pig, com a ajuda do botinho, virou o barco em direção ao vento e colocamos a âncora pra tentar não ir mais pro raso ainda, por sorte o fundo era lama, e com a ajuda do motor e mais o botinho começamos a conseguir nos soltar.

Detalhe, no meio desse processo o botinho virou pra trás, por cima do motor, foi tudo pra dentro d’água, Pig, motor de popa, tanque de gasolina, com o motor ainda funcionando, e eu só vendo, sem poder fazer nada.

Nisso chegou o reboque, o cara foi logo avisando que era US 350 por hora mesmo que levasse 15 minutos, dissemos ok, que não tínhamos o dinheiro a bordo mas que iríamos pegar em algum ATM.

Acontece  que o cara estava sozinho, e parecia totalmente inexperiente, só precisavamos tirar a nossa âncora que tinha ficado pra trás, e o nosso motor tinha super aquecido, por não refrigerar direito na lama. Ele nos abordou por barlavento, embolou o nosso cabo nos motores dele e qdo finalmente conseguiu tentar nos puxar já era tarde demais, estávamos em muito pior situação do que antes!!!

O Pig resolveu então, enquanto o cara nos segurava no lugar com os motores a toda, levar a outra âncora o mais longe possível, em direção à saída, pra irmos nos puxando à medida que a maré fosse subindo (por sorte não encalhamos na maré cheia).

Nisso chega uma figura num bote, só de bermuda, com uns papéis na mão, dizendo que precisávamos assinar uns documentos, no meio daquela confusão, sem se identificar, sem explicar mais nada, achei que só poderia ser piada e perguntei: “Are you joking?”, o cara virou bicho, foi pra lancha reboque e ao tentar subir caiu na água com todos os papéis, ficou mais furioso ainda, mandou o cara que estava tentando nos ajudar, pegar suas coisas e ir embora no bote, e assumiu o comando.

O Pig já estava lá longe, depois de emendar os 2 mais longos cabos que temos a bordo, levando a âncora reserva o mais longe possível, quando a tal figura, olhando pra mim, pegou um facão, pegou o nosso cabo, que estava amarrado no dele, cortou o cabo e foi embora, nos deixando a mercê do vento, da corrente e da maré, no meio do nada, perto demais de terra, mas numa reserva ambiental, sem viva alma.

Pelo whatsapp contatei a “turminha do caribe” pra ver se tinha alguém na área, mas só o Tantomar estava em St Thomas mas lá na Crown Bay Marina, se ofereceram pra ir de ônibus ajudar, mas não adiantava, precisávamos de um forte reboque ou muita sorte com a maré.

O tempo foi passando e já de noitinha consegui falar com outro serviço de reboque que poderia ir na outra manhã cedinho, caso não tivéssemos conseguido sair sozinhos.

O Perry, que estava nos dando as dicas do piloto automático, foi nos ver num botinho, mas nada podia fazer, a não ser dar apoio moral, o que já foi muito.

Foi uma espera difícil, o barco batia e batia, com o vento e a ondulação, sem sair do lugar, a maré cheia estava prevista pras 4 am, mas fomos acompanhando, e a medida que soltava um pouquinho a gente ia se puxando mais pra perto, primeiro da âncora principal e depois da reserva, até que voltamos a boiar, mas ainda de madrugada, esperamos amanhecer pra sair sem maiores sustos.

Liguei pro novo reboque pra agredecer e avisar que não precisávamos mais da ajuda dele, e voltamos pra Christmas Cove (em tempo de escapar da chuvarada que caiu e com direito a arco-iris) de onde não deveríamos ter saído,

Dias depois ainda estávamos tensos e exaustos, esses momentos nos fazem repensar nossas escolhas…

This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *